São Paulo, domingo, 08 de agosto de 2010

ARQUIVO ABERTO


MEMÓRIAS QUE VIRAM HISTÓRIAS


Arte no buraco

São Paulo, 1987

Fábio M. Salles/Folhapress - 26.jun.1987

Da esq. para a dir., os artistas Carlos Delfino, Jaime Prades, Claudia Reis, Alberto Lima, Rui Amaral e José Carratu, no Buraco da Paulista



RUI AMARAL


Verão de 1987. Parque Ibirapuera. Prédio da Fundação Bienal de São Paulo. Passeio de bicicleta pelo pavilhão vazio. Vejo as copas das árvores pelas janelas que fazem papel de moldura, projetadas por Oscar Niemeyer.
Era a montagem de uma grande mostra de arte contemporânea brasileira, com o sugestivo nome de Trama do Gosto. Após a produção da nossa área na mostra, sob a curadoria de Alex Vallauri, os companheiros do grupo Tupynãodá (eu, Zé Carratu, Jaime Prades), John Howard, Waldemar Zaidler, Ozeas Duarte e Vado do Cachimbo, saímos da fundação, ainda com a luz do dia, em direção à avenida Paulista. Mais precisamente, o complexo viário Paulista-Rebouças, carinhosamente batizado de Buraco da Paulista. Começamos a ocupar aquele complexo viário gigantesco com a nossa arte. Íamos lá direto.
Primeiro, eu e o John Howard. O Carlos Delfino, que ainda não havia entrado para o Tupynãodá, também tinha um trabalho lá. Foi nesta época que nos conhecemos e o convidamos a integrar o grupo.
O Tupynãodá e o John Howard foram os precursores em pintura a mão livre nas ruas de São Paulo.
Antes só havia o pessoal do "stencil" (máscara). Usávamos spray e até mesmo látex. Fazíamos grandes grafites. Esta nova forma de pintar a cidade facilitou a ocupação de grandes espaços como o Buraco da Paulista e o Beco do Batman, na Vila Madalena. Foi esse pequeno grupo que deu origem a todo este movimento de arte de rua que ocupa São Paulo hoje, com grandes painéis feitos a mão livre. Pintávamos toda semana. Não havia um dia certo e isso ajudava a despistar a polícia. O volume de trabalho aumentava a olhos vistos; decidimos começar a pintar sistematicamente nos fim de semana e enfrentar a polícia.
De repente, começaram a aparecer outros artistas da Bienal e pessoas de todos os cantos da cidade. Me lembro do Araujo Santa, do ABC, Alberto Lima, Claudia Reis e do Arthur Lara, hoje professor da FAU-USP.
Muitos levavam até escadas para fazerem seus trabalhos. Tudo de forma ilegal, sem autorização.
Foi uma loucura! Lembro de um dia em especial, com muita gente pintando. Parecia um evento organizado, como estes que fazemos hoje em dia, mas era apenas um encontro de pessoas que tinham as mesmas ideias. Foi como se abríssemos a porta e todos entrassem. Muitos fotógrafos, jornalistas de grandes veículos, curiosos. A polícia não teve como deter tanta gente.
Foi um domingo inesquecível. Vivíamos sob o governo municipal conservador de Jânio Quadros, o primeiro prefeito eleito democraticamente pós-ditadura, em 1985. Chegamos a ter reuniões com secretários municipais para tratar do assunto, mas o diálogo era difícil.
A prefeitura queria que o espaço não tivesse pintura, que ficasse uma tela em branco. Tentamos ocupar outro túnel, embaixo da praça Roosevelt. Fomos todos presos e processados criminalmente pela prefeitura. Um advogado da Anistia Internacional nos defendeu. A prefeitura começou a apagar os desenhos do Buraco da Paulista. Eu e John Howard ficamos sabendo e voltamos ao local. Enquanto eles apagavam os nossos trabalhos, na mesma hora começávamos a fazer novos desenhos. A polícia apareceu e lá fomos nós de novo "tocar piano" na delegacia.